CRISE ECONÔMICA = Quebra de padrões

Uma crise econômica é,  antes de tudo, uma quebra de padrões monetários.

Imagine a primeira cédula de R$ 1,00 emitida no lançamento do Plano Real, em 1994, esquecida numa gaveta. Naquele ano, ela comprava um café expresso. A nota pode ter até um valor como símbolo para o Banco Central do Brasil, mas economicamente vale o mesmo que o R$1,00 debitado em bits da nossa conta corrente e que em valor de hoje compraria apenas  1/3 de cafezinho.  A cédula mudou, sem ter mudado.  Teve o sentido de valor alterado, ainda que mantido sua representação pictórica, numérica, gráfica, de símbolo nacional.

 Sabemos por definição que dinheiro é qualquer moeda aceita como meio de troca.  Paradoxalmente, ela mantém-se como meio de troca tangível em época de estabilidade e rompe com a representação de unidade monetária  em crises profundas.

Já foi sal – a palavra salário vem dos pagamentos em sal que os romanos faziam – hoje é [armazenada em] bits. O sal em salário é uma semantização que nos faz pensar na evolução histórica das civilizações recheada de rupturas de padrões monetários. Como a depressão que afundou a Inglaterra em 1846-1847. Diferentemente de uma crise provocada por catástrofes naturais ou guerras, aquela é reconhecida como genuinamente financeira. “O capitalismo havia alcançado um grau suficiente de maturidade que mesmo o apologista burguês mais cego podia ver que as condições financeiras, a especulação incessante e a superprodução tinham algum vínculo com os eventos”,  registrou Harvey, David, (2010) em Condição Pós-Moderna.

Meio de troca, reserva de valor e unidade de medida são características da moeda que se faz representar econômica e socialmente como cédula.  A tensão entre as funções da moeda como medida e como representação de valor, por um lado, e como lubrificante de troca, por outro, já abalou outrora as idéias adquiridas sobre o sentido e o papel do dinheiro na vida social e deve provocar outros abalos.

A moeda,  seja ela qual for, alterna períodos de estabilidade com o de volatilidade, até a explosão da unidade monetária e sua substituição por nova.  Um binarismo que nos lembra a movimentação de outras ondas na natureza e na ciência. Há períodos de simetria entre os preços e produtos, alternados com períodos de assimetria, em que a única constante é a mudança galopante.  Estes são os dias de:  inflação*.

* Trecho do ensaio A Semiótica da Inflação que apresentei  ao Curso de Semiótica da Comunicação na Cultura. Disciplina da Pós Graduação da Escola de Comunicação e Artes – USP à Profª Drª Irene Machado

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