Aquilo sobre o que não convém falar

Hoje é dia dos mortos. Finados. Aqueles que passaram dessa para melhor. Dos quais se tem saudades. A ponto de doer tudo. De tudo perder o sentido. O trauma da perda, o luto, não tem graça.  Apesar do cheiro de escárnio na blogosfera, nas redes sociais.  Os dias que correm me trazem experiências perturbadoras.

Eu perdi meu pai com 18 anos de idade. Ele tinha 80. Minha homenagem a ele vai em frases que dele escutei:

“Ao cozinhar, comece sempre pelo tempero”, repetia ele quando preparava o nhoque de domingo.

“Só beba com quem possa brindar”, aconselhava, enquanto eu me preparava para a noitada.

“Cuidado com o esquadrão da morte”, me advertia, quando eu já estava com um dos pés na rua.

A sabedoria de um homem simples que não havia concluído o curso primário marcou minha trajetória entre os 7 bilhões de vivos atuais.

Minha mãe morreu aos 93 com alzheimer. Ela já não reconhecia mais os filhos,  netos, bisnetos e tataranetos. Foi enterrada no Cemitério da Lapa. As melhores lembranças são ela cuidando de mim. Colocando fatias de batatas na minha testa para baixar a febre, quando eu ainda era um infanto. Era bondosa e correta, acima de tudo. Até meus doze anos, ela me levou em todas as missas da Igreja Adventista do 7o. Dia.  O sétimo dia, não está no nome à toa. Ele marca os sábados, todos os sábados!   Quando voltava para a Rua Catulo da Paixão Cearense, com a Bíblia embaixo do braço, encontrava meus amigos jogando bola na rua.  Mas todas as partidas de futebol perdidas não pagavam a alegria desses dias de mãos dadas, mãe e filho na Liberdade.  O ônibus da Praça João Mendes, a pastelaria da Praça da Árvore.  Aos 14 anos, ela me apresentou ao dono da loja de sapatos na Av. Jabaquara. Ele não tinha vaga, mas indicou um colega de uma papelaria que me deu o primeiro emprego.  Minha mãe abrigou todos os amigos que conheci na rua e levei para casa. Todos que quisessem, dormiam e comiam conosco.  Não falava muito, fazia. Insistia que eu estudasse para que não fosse analfabeto.  Ela nunca soube ler e escrever. Tentei, eu mesmo alfabetizá-la, numa época, mas ela achava que já era tarde demais.  Criou quatro filhos e muitos outros agregados, primos, sobrinhos. Todos moravam no mesmo lote. Quatro casas no mesmo quintal. Meu pai, meu sobrinho, minha mãe, meu irmão, minha prima, um amigo de família, um sobrinho-neto, minha cunhada, minha irmã. Nesta ordem foram as perdas que eu já chorei. Ninguém sabe ao certo a dor do outro.  Não convém falar da dor alheia.

Mas hoje, nas redes sociais todas as entranhas viraram figuras públicas, não é mesmo?  A privacidade passou a ser apenas um conceito teórico.   As pessoas se comportam como se soubessem da dor que nunca tiveram e nunca terão.

Vigiem os sentidos que tomam seu pensamento. O escárnio vem do rancor, do orgulho, da inveja ou ciúme. Sentimentos dos quais ninguém está imune.  Você decide qual sentimento quer cultivar ai dentro.

Obrigado,  Josepha e José Molinari por eu saber distinguir as coisas sobre as quais não convém falar em público.

 

 

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