À espera de um cadáver

Nas ruas, multidões ensandecidas destilam ódio pelas “verdades” que creem.  Juízos formados pela mídia/opinião pública ameaçam toda sorte de contrato social.

Os políticos e sua respectiva representação garantida numa democracia republicana e presidencialista como a do Brasil estão frágeis neste papel.

Começou como uma mera vontade tinhosa, arrogante e revanchista de uma derrota eleitoral e chegou à abertura de Pandora.  Os males pairam sobre a democracia. Os corruptos que correm para salvaguardar suas cabeças indicando o governo Dilma como o culpado dos roubos por eles perpetrados, vão se surpreender quando virem tomado de assalto os seus direitos fundamentais.

Vivemos um momento delicado. A judicialização da política, a criminalização dos movimentos sociais, a intimidação aos direitos civis, a redução da maioridade penal são embebidas na intolerância que bate à porta das instituições. Neste contexto, em que as representações perdem a força, os símbolos tornam-se emblemáticos: a cor vermelha é perseguida, o verde-amarelo embota; políticos são rechaçados, juízes glorificados; o diálogo é interrompido, as diferenças cassadas.

Caçam Lula, preservam Cunha. O primeiro sem julgamento, sem provas, se vê condenado na mídia, o segundo, com confissão de ‘usufruto’ gravada, preside a instalação da comissão de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Há um esforço concentrado na articulação oposição-mídia-judiciário em provar que Lula não é um mito. Uma premência em execrá-lo como herói dos pobres, uma necessidade de mostrá-lo em carne e osso, em destruí-lo como símbolo e liderança.

A extração do mito Lula do imaginário popular, ainda que intangível,  não se daria sem ruptura dos contratos sociais que ora se simula.

Mesmo que se negue o latente conflito de classes submerso nas entranhas da sociedade brasileira, é ele que irá acossar a certeza dos que pregam a ira e a raiva nas ruas.  

Desinflamar os ânimos, antes de uma explosão social é único vislumbre no beco sem saída em que enfiaram a nação.  Os poucos líderes com alguma representação social têm a responsabilidade de tornar a Constituição Brasileira válida para todos, sob pena de não terem mais nada a fazer depois que o primeiro cadáver nas ruas aparecer.

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