Ambiente de estupro coletivo

 

A gente não escolhe onde nasce.  Mas poderia ter sido achado numa caçamba, mas não: tenho nome e sobrenome. Poderia ter sido pescador, frisador, senador, mas não:  virei jornalista, palavra que apenas identifica quem sou, profissionalmente, falando (como se eu pudesse dissociar  coisa, doutra). Nas lides, conheci pessoas de todas as matizes filosóficas, religiosas, de  mestiçagem infinita, de gêneros diversos, de condições socioeconômicas distintas, mas numa coisa todos eram parecidas: tinham a capacidade de se colocar no lugar das outras. Habilidade que as religiões chamam de compaixão; a psicanálise, de empatia; a sociologia, de solidariedade. Não importa o nome. Cresci com familiares e pessoas que cultivaram em minha índole o sentimento afeto à humanidade. Qualquer uma delas, tenho certeza, daria a vida para impedir o estupro coletivo daquela garota do Rio.  O que quero dizer é que não importa aquele discurso chinfrim moralista de ordem e progresso.   Você é o que faz, não o que fala.

Mas o que as pessoas fazem? O que aconteceu com a empatia, compaixão ou solidariedade dos brasileiros?  Muitos vão aqui dizer que não vale a pena buscar explicações sociológicas para justificar as ações dos “monstros” e etc.  Tem que prender e coisa e tal. Mas não inviabiliza a questão: como é que entre 33, não houvesse um a acusar aquele absurdo?

É uma metáfora do Brasil atual em que os poderes da República vivem um estupro coletivo. Indivíduos sem nenhuma empatia, compaixão ou solidariedade com os brasileiros apoderaram-se das instituições para usá-las em seu benefício. Basta uma gravação para desmoronar o castelo de aparência de honestidade sob a qual estão investidos.   A verdade tem muitas faces, mas a mentira, não.  Ela é feia e crua.

A falta de capacidade de se colocar no lugar do outro, produziu essa plutocracia que, hoje, ressente-se  da proteção “amiga” do ápice do poder.  A formação de quadrilha com a Velha Mídia, que ainda sustenta a armação, dá sinais de exaustão. O preço de manter a credibilidade está cada vez mais alto. Todos são responsáveis pelo que sabem. Onde estão os humanos capazes de enfrentar a verdade?

Talvez por isso, Miriam Leitão tenha escrito, diante do horror do estupro coletivo do Rio, que não queria ter lido o jornal, não ter tido notícias do fato. A dor por decerto acometeu a todos nós. Mas não é de agora que o jornalismo não tem interesse no universo humano dos brasileiros. O que move a imprensa são os grandes números da macroeconomia, do déficit público. Certamente, há ferramentas estatísticas importantes da economia que ajudam a manter o valor da unidade monetária, a base da riqueza circulante. Mas a que preço?  Qual indicador macroenonômico trará valor à vida?

Os empoderados estão preocupados demais com si mesmo para pensar nos outros. Baseados nos indicadores da macroenonomia, escolheram acabar com os recursos reservados à educação.  Esse país não tem futuro, sem educação.  As crianças e jovens tem que frequentar lugares e conviver com o cultivo de sentimentos de empatia, compaixão e solidariedade. Imagina o que é criar uma criança frequentando esse ambiente político ou sob os ditames desse ambiente político.  O que pode crescer desse adubo?

 

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