A supremacia da irracionalidade

 

Há muito tempo não me surpreendo com os discursos vazios que maquiam os interesses reais. Mas chamam a atenção, quando superam quaisquer vínculos com a realidade objetiva.

A irracionalidade vige na retórica daqueles políticos que lutaram para entregar o poder a Temer.  Recentemente, o ex-ministro da Justiça de FHC, Miguel Reale Jr, do alto de sua consciência proclamou o Fim da Corrupção, com a queda de Dilma. Mesmo com sua palavra açoitada pela realidade do balcão de negócios que sobrevive no congresso nacional, Reale Jr não enxerga mais a corrupção. Chegou também a formular uma nova tese sociológica de que os partidos políticos não importam mais, pois, agora, temos as redes sociais. Fosse um comediante proclamaria: Todo o poder ao Facebook!

Mas como o assunto é sério, observamos que se trata apenas de uma afetação presunçosa da realidade – sem nenhuma métrica ou ensaio científico de valor – para encobrir os reais interesses. Esses estão expostos nas mudanças das regras promovidas pelo governo Temer. Qualquer empresário brasileiro que teve sucesso com as benesses do estado (ou da elisão fiscal) sabe de cor a cantilena que, supostamente, resolveria as contas do governo e que, julgam, seria o passaporte para a retomada da macroeconomia.

Vejamos, por exemplo, os pontos elencados e escritos por Abílio Diniz acerca das ações do governo que, segundo ele, seriam o caminho para o melhor do país (aos quais faço meus comentários) :

1) Encaminhou e aprovou emenda constitucional que estabeleceu teto aos gastos públicos por até 20 anos. Sem esse limite, seria impossível começar um ajuste crível e sustentável das contas públicas.

Meu comentário: Esse teto é inócuo se estados, municípios e empresários repassam suas dívidas e riscos para o tesouro nacional.  São R$ 427 bilhões de dívida dos estados. Nas empresas, só as Teles vão ser premiadas com R$ 105 bilhões.  Desta forma, o limite apenas vai precarizar a saúde, educação e segurança.

2) Encaminhou uma reforma da Previdência, defendida por todos os governos recentes, que busca corrigir distorções grosseiras e injustas no sistema, evitando problemas muito mais sérios no futuro próximo.

Comentário:  A reforma proposta pelo governo está longe de corrigir as distorções que advém do próprio setor público, especialmente, do judiciário e do legislativo. A proposta apenas faz o trabalhador do setor privado trabalhar mais tempo e abre a possibilidade de transferência dos fundos públicos para a previdência privada. Longe de resolver o problema, de fato, incrementa o caixa do setor financeiro.

3) Retirou da Petrobras a obrigação de explorar o petróleo em todas as áreas do pré-sal, o que ajudará na recuperação já em curso de nossa maior estatal e trará investimentos vitais de empresas privadas ao setor.

Comentário: A retirada ‘da obrigação de explorar” é um eufemismo para encobrir a retirada da exclusividade e da autonomia sobre a exploração do pré-sal que eram garantidas à Petrobras. Na prática é a privatização dessa riqueza fóssil sob o pré-sal que poderia levar o Brasil a um padrão de vida comparado aos países do primeiro mundo.

4) Aprovou a nova lei de governança de estatais, agências reguladoras e fundos de pensão, que exige qualificações técnicas e experiência profissional de seus dirigentes, acaba com indicações eminentemente políticas e estabelece regras de governança similares às de empresas de capital aberto.

Comentário: É risível que ‘indicações eminentemente políticas” acabaram no governo Temer e quiça em qualquer outro futuro governo.

5) Aprovou na Câmara a reforma do ensino médio, vital para melhorar a educação, que agora tramita no Senado.

Comentário: A Medida Provisória desse esdrúxulo ensino médio proposto foi criticada até pela Procuradoria Geral da República. Não tinha emergência, nem relevância. Principalmente, quando Alexandre Frota é um dos entusiastas dessa mudança.

6) Deu nova força ao combate à inflação -e já colhe bons resultados.

Comentário: Colhe bons resultados do combate à inflação? Quem faz compras nos supermercados sabe que o preços não pararam de subir. Ninguém reduz sua margem em prol do consumidor. Diniz sabe bem disso.

7) Destravou o setor elétrico, abrindo caminho para investimentos em infraestrutura.

Comentário: A precariedade dos serviços das concessionárias de energia elétrica, como os fios expostos e a constante falta de energia, revela que a falta de investimento no setor vem de longa data, possivelmente, deste a privatização.

Há ainda outras ações a celebrar, o que mostra a capacidade do governo atual de identificar dificuldades e elaborar respostas.

Comentário: o brasileiro não tem nada a celebrar. O governo se mostra incapaz de atuar em benefício da nação. Especialmente, sobre as relações trabalhistas, uma vez que propõe a retirada de direitos consagrados dos trabalhadores para atender ao eterno desejo dos patrões de gastar menos com a folha da pagamento. Ou seja, Temer, apenas, aproveita pra colocar em prática ações que nunca seriam propostas por um governo que enfrentasse as urnas.

Diniz e a maioria dos articulistas econômicos enviesam suas análises de conjuntura dando peso irracional à relevância da ação do governo Dilma como motor da crise. O aperto fiscal não é uma panaceia. Quem é sério sabe que a crise é do capitalismo como um todo. O Crash de 2008 ainda não foi solucionado. Muitas marolas e tsunamis serão provocados. Enquanto isso, nossa elite, envaidecida com a conquista do timão da política econômica (que hoje está nas mãos do mesmo Meirelles que conduziu a economia durante os governos Lula) passou a tratar o cenário (e as planilhas) quase como questão de fé.

Um exemplo insólito é atuação do prefeito eleito de São Paulo que – ao não acreditar nas métricas da física – aumenta o limite de velocidade dos veículos nas Marginais, arriscando sua própria reputação quando o número de acidentes voltar a crescer e o trânsito retomar a sua paralisia.

Enlouquecida, a elite, mostra sua face mística e obscura.

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