Uma imagem repugnante

Caminhei da Barão de Limeira à Estação da Luz, no centro de São Paulo.  Em quinze minutos, minhas retinas retiveram as imagens mais repugnantes de degradação humana. Não pelo cheiro de fezes e urina que exala das ruas sujas, nem pela ameaça  de ser atacado a qualquer instante  pelos usuários de crack, mas pela mais completa ruptura com o que aquela região representou na minha memória de criança.

Poderia ter sacado o celular e registrado as cenas que lerão a seguir. Mas a profusão de fotografias e selfies decerto banalizou o pictórico da miséria humana. Prefiro confrontar minhas lembranças do glamour de senhores de chapéus e senhoras de sombrinhas entrando nos trens da Luz com a imagem realista de Zola em O Germinal. Sim, porque no  curto percurso pela Avenida Cásper Líbero me entranhei pelas ruas de Les Misérables, de Victor Hugo.

Ocorre que estamos em pleno Século XXI, em que a presença de edifícios modernos floresce na mais recente fronteira da cidade. A 8 quilômetros do centro, na Berrini, querem nos convidar para as chamadas Smart Cities. Quiça.  O que vi hoje solapou um pouco mais minha esperança em qualquer desenvolvimento angular de subida sustentável, sem ruptura de ordem social.

CENA – 01

Praça Duque de Caxias.  Dois homens na primeira esquina negociam uma pedra de crack, enquanto outros estão dispersos pela praça. Não se deitam, mas pesam o corpo sentados, como se quisessem sucumbir ao chão, não fossem impedidos pela presença dos Guardas Metropolitanos.  Na segunda esquina, a  40 metros, um ônibus com as inscrições “É possível vencer o Crack”, serve de apoio ao trabalho dos policiais.  Sob o toldo, que se abre de um dos lados do veículo, dois policiais inquirem um suspeito. Aparentando 30 anos, o homem está com as mãos para trás, contido. Os policiais também estão com as mãos nas costas. Não havia agressão, a cena passaria despercebida, se nas mãos que o policial protegia não repousasse uma pistola automática. Não era uma ameaça. O policial não a empunhava, mas sim a acomodava pelo cão e ferrolho.

CENA – 02

Avenida Cásper Líbero.  A ilha central da via está tomada por carroças e seus puxadores, homens que recolhem papelão, latinhas, ferro-velho, plásticos e toda sorte de material reciclável, cujo excesso transborda pelas sarjetas e serve de apoio como travesseiros e colchões aos catadores que  distribuem, entre si, a cachaça de um vasilhame de vidro em garrafas pequenas de refrigerantes. Na calçada do lado esquerdo de quem se adianta para o histórico edifício Júlio Prestes, há uma fileira de drogaditos. Os cachimbos mudam de mãos sem nenhum constrangimento. Enquanto passeio, amplio o raio de atenção para evitar assaltos covardes. Os motoboys, taxistas, prostitutas, policiais, cafetões etc. transitam sem oferecer surpresa com o cenário. É tudo parte de uma única pintura.

CENA -03

Rua Mauá. Um velho desdentado se estranha com uma prostituta jovem, também, sem dentes. Cobra fidelidade, abertamente, em troca do dinheiro que paga à mulher, sem nenhum atrativo sedutor. Ela pede o dinheiro, como parte de um acordo tácito de que pertence a ele, enquanto receber por isso. Se desentendem. Se separam. Se prometem, e se alimentam da esperança de suas próprias palavras.  Uma travesti, também banguela, oferece sexo sem camisinha a quem passa pelo seu caminho.

CENA -04

Museu da Língua Portuguesa.  Inúmeras barracas estão armadas em frente à fachada do prédio histórico que se recupera do incêndio, mas não se recupera das sequelas sociais que habitam seus curtos umbrais. Um homem sem camisa expulsa aos berros um outro viciado que rodeava sua barraca de camping. Não houve briga.

Foram apenas quinze minutos neste trágico cenário que ninguém se incomoda mais em registrar.

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