Já somam algumas  décadas a predominância da milícia em territórios cariocas e fluminenses. A convivência com o Estado só é possível pela conivência de agentes públicos em postos estratégicos que fazem vistas grossas, são cúmplices ou se beneficiam direta ou indiretamente da venda de deveres estatais como segurança, alvarás, licenças e sentenças e da comercialização do acesso pirata a serviços de fornecimento de água, luz, telefonia, internet, televisão e transporte. Até uma taxa similar ao IPTU é cobrada pelo “pedaço” de moradia. O negócio cresceu muito e transbordou dos territórios tomados dos traficantes para a construção de novos condomínios em áreas invadidas de proteção ambiental com all included.

A comunidade da Muzema é uma delas. Ocupadas, preferencialmente, por forças milicianas que buscam se desvincular do tráfico e do jogo do bicho. Uma espécie de nova ordem de forças paramilitares que intenta lavar o dinheiro do crime em atividades como construção, negócios imobiliários – ainda que clandestinos – segurança privada e venda de armas. Esses paramilitares encontraram sustentação política na Câmara Municipal do Rio e na Assembleia do Estado. Estão por trás das mortes da Vereadora Marielle e do seu motorista e do desvirtuamento do inquérito que não permite chegar aos mandantes dos criminosos – cujas relações com a bolssonaria são escamoteadas da opinião pública por falta de interesse editorial das empresas do chamado “jornalismo profissional”.

A ascensão política destes paramilitares decorre da deformação das instituições fluminenses que abrigam agentes corruptos e corruptores e que se organizam num Estado paralelo, longe do Estado de Direito, e para o qual a lei só se aplica aos inimigos. Além da intimidação pelo medo e pelo terror, obtém apoio, paradoxalmente, por causa da descrença na retidão e eficiência dos agentes públicos que representam as instituições.

Essa, por assim dizer, “oligarquia” fluminense é a força que, em Brasília, trabalha para o desmonte do que há de proteção social no Estado brasileiro atacando, principalmente, qualquer lei que mire a construção de políticas contra a desigualdade socioeconômica e o amparo de direitos dos desfavorecidos. Sua bandeira é o fim do coitadismo. Ou seja, no mercy, sem perdão ou solidariedade.  Sua filosofia é uma declaração de guerra contra o povo pobre e indesejável.

As conexões com a enxurrada de Fake News nas redes e mídias sociais e a propaganda ao estímulo odiento contra as instituições precisam ser trazidas à luz. Sob pena da República ser sugada num Buraco Negro, o que é de interesse, justamente, daqueles que operam um “estado” paralelo.

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