Presidência da República partiu para ignorância como estratégia política

Bolsonaro dá sinais que quer surfar na desordem criada por si próprio

A verbalização da sua ignorância em relação ao país (“não tem fome no Brasil”), à cultura e censura (“não gasto dinheiro com filmes como Bruna Surfistinha”), à ciência, estatística e  meio-ambiente ( “dados do INPE estão a serviço de alguma ONG”), ao emprego (“acabar com multa do FGTS”) à chancelaria e embaixada brasileira em Washington (“vou indicar Eduardo porque ele fala inglës (sic) e já fritou hambúrguer lá (sic)), à história e a liberdade de imprensa(“Miriam Leitão não foi torturada”), à soberania nacional (navio do Irã) e ao preconceito, deboche, respeito às diferenças e aos entes federativos (esses  ‘paraíba” e nada para o Maranhão) trouxeram à tona o verdadeiro ethos de Bolsonaro. Nada que não se sabia. Mas o acinte e a agressividade com que propalou essas bobagens produziu dois efeitos: elevou o tom dos discursos das instituições e inaugurou a retirada das escoras que continham inerte o volume crescente de esgoto bolsonarial.

Bruna Surfistinha foi arrastada a tuitar que Bolsonaro “não tem o que fazer”

Tom acima

Os governadores do Nordeste, especialmente, Flávio Dino do Maranhão, devem, entre outras ações – já assinaram nota conjunta – procurar as vias judiciais contra Bolsonaro por Crime de Responsabilidade (e outros). A qualidade do discurso abandona o verniz protocolar e assume uma disputa conflagrada. O diretor de umas das instituições mais queridas e reconhecidas do Brasil, Ricardo Magnus Osório Galvão, não usou de meias palavras para devolver a Bolsonaro a mesma ‘deferência’ que recebeu do presidente da República: ‘atitude pusilânime e covarde’, diz diretor do Inpe. Galvão rebateu críticas feitas pelo presidente de que dados de alta do desmatamento na Amazônia são mentirosos e de que ele trabalharia ‘a serviço de alguma ONG’.

As duas crises foram abertas pela exaltação à ignorância de Bolsonaro. Tão eloquente, que o jurista Marcelo Uchôa perguntou num artigo: “Afinal de contas, o que é isso que está no comando da Presidência da República do Brasil? É um presidente ou um demente? Se for um demente, que seja interditado para tratamento”.

As escoras da represa de dejetos se retiram

A direita convicta admite engolir as merdas da Presidência da República por um “bem maior” ( o que quer que isso signifique: contra o PT, a Venezuela, o Irã etc..), mas os agentes, as redações e os  jornalistas vinculados ao mercado se descolam desta cruz. Vencida a primeira etapa da aprovação da mística panaceia, chamada Reforma Previdenciária, os ganhos em sustentar um Shit Tank pesado como Bolsonaro já foram pagos e resgatados. Daqui para frente, carregar este fardo só para  o Antagonista e Merval Pereira (pelo ódio obtuso ao movimento trabalhista); Eliane Cantanhêde, Josias de Souza, Miriam Leitão, Rachel Sheherazade Barbosa etc. já não adiam mais a publicação de comentários, análises e matérias que poderiam constranger (‘FHC’, ops,), digo, a votação da reforma.

A ruptura das oligarquias regionais

A velocidade com a qual Bolsonaro perderá apoio será como a ruptura de Brumadinho. A lama irá esgarçar a mídia de maneira geral. Principalmente, porque os ganhos econômicos prometidos aos apoiadores eleitorais não vieram. O butim amealhado a quem se fiou na turma de Paulo Guedes, nos últimos cinco meses, por exemplo,  bateu o recorde com o fechamento de 2,3 mil fábricas no maior centro industrial do país, São Paulo. Até Witzel ameaça romper, politicamente, com Bolsonaro se não receber o perdão e alívio da dívida fluminense com a União em longas parcelas a perder de vista. O Sul e o Centro-Oeste dependentes das exportações vão se zangar não apenas pela “barbeiragens” do ministério das Relações Exteriores que fecha a porta aos melhores clientes do agrobusiness (Irã, Árabes e China), mas por causa dos erros cometidos pelo neto de Roberto Campos no Bacen que irão nos levar a apreciação do Real em relação ao dólar.  O namoro com os ruralistas está chegando ao fim.

Asseclas e fascistas

Os puxa-sacos de quatro costados foram correndo às redes sociais estancar os vazamentos da represa de dejetos presidenciais. Moro sem nenhum pudor tem queimado o prestígio, que conquistou na lava-jato, escrevendo tuítes do tipo, a seguir, “Um testemunho: Em janeiro, na crise de segurança do Ceará, o PR @jairbolsonaro , primeira semana de governo, não hesitou em autorizar o envio da Força nacional e da Força de intervenção penitenciária e em disponibilizar vagas em presídios federais para as lideranças criminosas”.  Como se não fosse obrigação constitucional. Se caso não o fizesse, configuraria prevaricação, entre outros crimes de responsabilidades. Aliás, a escora populista de Bolsonaro está calcada no mito construído de combate a corrupção que a cada semana cede mais um pouco com as revelações do Intercept das ações venais dirigidas por Moro e Dalagnol.

É com o esteio da Lava Jato que Bolsonaro imagina resistir ao isolamento que se anuncia. Falando diretamente aos seus seguidores das redes sociais para compensar a defenestração dos eleitores e do  apoio de generais que estão desconfortáveis com os problemas que Bolsonaro arrasta. Todos os fantamas de Bolsonaro, da facada, passando pelo pó no avião da FAB, à milícia, irão assombrar o governo. 

A ignorância como estratégia

Bolsonaro, como todo ególatra, há de calcular que seu exército de milicianos será suficiente para fazer frente à ruptura que se segue.  Suas próximas jogadas são ou a retirada vergonhosa (que já fez em vários assuntos) abrindo espaço para o protagonismo de Guedes (em troca do apoio dos atores do mercado) ou uma guerra aberta com seus sanguinários ignorantes à frente pela exploração de jazidas na região da amazônica, pré-sal, militarização da ordem civil, privatização da universidades federais, fim do SUS e a agenda de destruição da face de bem-estar social contida no Estado e salvaguardada na Constituição.  Ou seja, o demente parece torcer por um álibi qualquer para romper, definitivamente, com as instituições. É pagar para ver.

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