A miopia de Bolsonaro

Nunca a palavra soberania foi repetidas vezes esvaziada de seu sentido

De todas as platitudes externadas nos cerca de trinta minutos de pronunciamento, destaco o trecho em que Bolsonaro associa a atuação do ex-juiz Moro com o fato de que “secou” a fonte de recursos que os “presidentes socialistas” transferiam para “outros países, com a finalidade de implantar e promover projetos semelhantes em toda a região”. Tal expressão dá sentido aos fatos já conhecidos de viagens sistemáticas de Moro aos Estados Unidos e da reunião a portas fechadas de Bolsonaro com a CIA. Dá consistência ao projeto de que a LAVAJATO se apropriou do legítimo sentimento de combate à impunidade e à corrupção do brasileiro para exercer, por vias oblíquas, o desmonte do Estado de Direito e Democrático e de Bem-Estar Social dos países da América do Sul.

Ao eleger um presente socialismo imaginário como o inimigo número um, Bolsonaro reforça o maniqueísmo da Casa Branca da luta do homens de “bem” contra o eixo do mal. O mundo é muito mais complexo, mas para o eleitor bolsanariano a alegoria é satisfatória.

A ambição com a qual quer lamber as botas norte-amercanas é apenas um rescaldo do movimento anterior (que teve início em 2012 com o impeachment do paraguaio Fernando Lugo e, em 2016, de Dilma Rousseff ) do qual Bolsonaro gostaria de protagonizar. Mas o conjunto de sua obra tisna por demais a confiança daqueles a quem abana a propalada “liberdade econômica”; “os investidores estrangeiros”.

O vassalo e seu suserano

O único objetivo deste governo, digamos, “estratégico” é oferecer os recursos naturais (commodities) – incluíndo as minas em territórios indígenas para exploração. Os homens dos campos de golfe querem, evidentemente, as “facilities management” ensejadas por Bolsonaro, mas não significa que, para isso, tenham que associar-se às bizarrices ou suportá-lo no “andar de cima”.

Envaidecido pelo poder e cego pela ideologia, Bolsonaro se apresenta ao mundo como mais real que a realeza. Despertando a desconfiança de todos. Se oferece como um cão raivoso que os ultra-ricos vão até usar. Mas, ele nunca será aceito como um deles entre eles, nem que seu filho amanheça vestindo de uniforme dos Marines. Essa é a ironia do bobo-da-corte: entre os reis, mas nunca para reinar.

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