Ufa! Quase virei um cidadão-de-bem

Estava diante de um crime. O secretário me chamou para buscar respiradores do hospital de campanha. Mas não fui. Tinha que entregar uma pizza para Rappi.

Minha mãe me ensinou o caminho do meio

– Filho, não anda com aqueles deliquentes da rua Quatro. E quando voltar do trabalho, evite a rua Doze para não ser esculachado pela polícia.

Era assim, cansei de ver amigos fazendo “favores” para a polícia para não ser preso. Alguns foram promovidos a “ganso” e chegaram até a tocar o serviço de “limpeza”. Viraram pés-de-pato.

Não me mataram porque muitos tomaram da sopa da minha mãe quando pequenos. Eu tinha salvo conduto onde morei desde sempre.

Mas tirar respirador de Hospital de Campanha, com muita vovózinha precisando, isso eu não faria, não.

Os homens-de-bem na aparência cheiravam perfume caro, mas nas internas, sempre tinham uma proposta estranha. Arrastar um carro. Emprestar o CPF. Arrochar um endividado de porrada. Eu sempre ouvia e conseguia fugir. Inventava uma desculpa básica:

– Minha mãe tá me chamando. Ah, e como gostava de estar em casa com ela. Escutávamos os clássicos da Era do Rádio. Tinha de tudo. De Billie Holiday a Natalie Cole; de Taiguara a Morengueira. Aliás, foi o Kid Moreira da Silva que me filosofou sobre o moedor da carne do sistema judiciário.

“Tinha jurado à minha mãe por toda vida
Não me meter em mais nenhuma trapalhada
Depois daquela do bandido em que o índio me salvara
Eu decidi levar a vida sossegada”

O sistema é bruto, o processo é lento e o delegado é doido.

Aprendi desde sempre que a polícia corre por fora, o delegado só vai na bola certa e o juiz nada divide. Então, sempre andei certo pelo caminho do meio na vida.

” Sem tostão e sem vintém
Mas nunca pedi a ninguém

Botei asfalto na linha
Fui vendedor de galinha
Carreguei cesto na feira
Eu fui garçom de gafieira
Comia numa tendinha
Que só fritavam sardinha
Com azeite de lamparina
Eu só cheirava a gasolina

Fui bicheiro, quitandeiro
Carvoeiro, açogueiro
Apanhei como um ladrão
Mas não mudei de opinião
E como sou caprichoso
Hoje me sinto outro homem
Até já mudei de nome””

Cheio de B.O. no Serasa até me encantei com a secretária do secretário, e, confesso, fiquei, por ela, na vibe de levar o respirador para outro lugar. Mas mesmo que pagasse um dos papagaios que eu devo, minha mãe me daria uma restrição fatal. Então, sigo como motoboy de mim mesmo. E longe de ser um “homem-de-bem”. Eu prefiro morrer pobre, com meu travesseiro amparando minha cabeça suave. E homem-de-bem, passar bem!

Gente de bem

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