A ausência de respostas às ofensas de churrascaria revela a perda de princípios éticos da deselite brasileira

Experimente levar um ˜desacato à autoridade” na sua ficha civil/criminal. Chegue diante de um abuso da PM na esquina e mande-o enfiar o leite condensado no rab*; ou sem atendimento em um hospital, por falta de vagas em leito de UTI, ou por falta de oxigênio, mande todo mundo para a p*taque o p*riu. Você terá muita sorte se chegar à uma delegacia sem nenhum machucado (por exemplo, por ter dado com o rosto no coturno de alguma autoridade).

Esse é o Brasil real. O país está condenado sob a ordem de uma pessoa que fala impropérios, mas é citado com reverências nas coletivas dos secretários e do ministro da Economia Paulo Guedes e nas reuniões dos grandes empresários. É evidente que o silêncio da Febraban, das famílias Setúbal, Salles e Aguiar, da CNT, da Fiesp, dos acionistas da Vivo, da Oi, da Vale da Petrobrás, e das empresas de comunicação e das redações, em particular, é a prova mais contundente da cumplicidade com o mau (com u mesmo) instalado no país.

A aliança dos outrora defensores da socialdemocracia com os milicianos tem um propósito pouco nobre. Sabem que as diferenças sociais se aprofundarão, inexoravelmente. A trégua do conflito entre pobres e ricos se esvaiu com o final do governo Lula.

Um pacto que deixou de fora os trabalhadores e a classe média intelectualizada está em curso. Todo o arcabouço desenhado na Constituinte da Nova República é alvo da deselite que, por uma questão de fé (os números macroenomicos não explicam), passou a lutar pelo desmonte do Estado brasileiro. O viés estatizante do Bolsonaro (por compromissos pragmáticos com esquemas corruptos e com setores nacionalistas das Forças Armadas) chegou ao fim. Ao abrir mão de gerir a Saúde Pública, quando delegou aos aliados das empresas privadas a ação prática da compra de vacinas e da vacinação contra a Covid-19, ele sinalizou que não reconhece mais o monopólio das prerrogativas de chefe do Estado. O poder da presidência que já está privatizado com o submundo de facções e de milícias digitais, seguirá agora, dividido, também, com aqueles empresários que o catapultaram às eleições.

A brutalidade de Bolsonaro foi escolhida pela deselite para lidar com os distúrbios sociais que se aprofundam. Não haverá mais nenhuma tentativa de integrar os pobres aos direitos de cidadania via Educação, Saúde ou Assistência-Social Públicas. Os pobres estarão entregues a empregos de baixos salários e poucos direitos. Trabalhar e estudar não será mais uma opção difícil a ser exercida. Agora, será trabalhar e trabalhar. Os que não conseguirem um precário posto de trabalho serão induzidos a buscar uma rede de proteção e assistência num universo longe de qualquer liberalismo pregado por Guedes: mundo do crime, mundo pentecostal ou nas fileiras de vigias, alcaguetes e seguranças privados. Concomitantemente, a organização dos trabalhadores foi minada pelo governo. A esquerda brasileira, hoje, não tem penetração nas massas para organizar grandes atos públicos, principalmente, por estarem (os atos públicos) constrangidos pelas medidas anti-aglomeração.

Nesse quadro acelerado de esgarçamento do tecido e do pacto social, os empresários e as instituições que se emudeceram, diante de xingamentos, estão fechados com a escolha de Bolsonaro para mandar os protocidadãos à p*ta que o p*riu e a imprensa a enfiar as latas de leite condensado no c*. Acreditam que pobres, pretos e brancos pobres como pretos serão eliminados à força, pelas armas, pela Covid, pela fome ou pela ignorância. Não necessarimente nessa mesma ordem.

Taí um caminho que tem tudo para dar errado.

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